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Obra de Freud ganhará nova tradução brasileira direto do alemão

Sobre o autor

BTS: Luiz Fernando Casanova Doin

Luiz Fernando Casanova Doin

é fundador e sócio-diretor da BTS – Business Translation Services, empresa de tradução sediada em São Paulo com mais de 15 anos de existência e mais de 5.000 clientes atendidos. Formado em Administração de Empresas pela Universidade de São Paulo (USP) e em Comunicação Social com ênfase em Marketing pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), é um apaixonado pela área de tradução e um estudioso do setor que procura aliar seus conhecimentos acadêmicos e experiência à prática tradutória.

MARCOS STRECKER
da Folha de S.Paulo

Freud não é mais o mesmo para o leitor brasileiro. Novas traduções estão dando nova cara aos textos do fundador da psicanálise, mudando termos já popularizados e imprimindo mais coloquialidade.

É o projeto do tradutor e historiador baiano Paulo César de Souza, que começa a publicar pela Companhia das Letras uma nova e ambiciosa versão das obras completas, em 20 volumes, um projeto que começou a desenvolver nos anos 80.

Seu esforço não é único. Em 2004 já haviam saído as primeiras traduções oficiais diretas do alemão, a cargo do psicanalista Luiz Alberto Hanns.

Em entrevista, Souza explica seu projeto e a rejeição a termos popularizados como “ego”, que deve voltar a ser “eu”, como no original alemão (opção também defendida por Hanns).

Os primeiros três volumes das obras completas chegam às livrarias em março, além da reedição de “As Palavras de Freud”, tese de Souza defendida nos anos 90 na USP. Como 2009 marcou os 70 anos da morte de Freud, seus textos originais caíram em domínio público. Ainda que não tão abrangentes, novas traduções também estão sendo lançadas.

FOLHA – Há quantos anos você se dedica à tradução de Freud?
PAULO CÉSAR DE SOUZA – O primeiro artigo que publiquei na imprensa já tratava desse tema. Apareceu justamente na Ilustrada, em março de 85. Minha primeira tradução de Freud, de “A Transitoriedade”, foi publicada em 89, também na Folha. Depois escrevi várias outras coisas, algumas reunidas em livros, e publiquei traduções numa revista da Sociedade Brasileira de Psicanálise.

FOLHA – Como conciliar a versão do texto original de Freud com a evolução dos estudos freudianos e psicanalíticos no século 20?
SOUZA – Acho que o tradutor deve se preocupar com os sentidos que as palavras tinham para o autor, não com os que elas vieram a ter para os comentadores e intérpretes. Esses outros sentidos não param de se multiplicar com o tempo, às vezes uma das conotações do termo original é ampliada por um discípulo, em detrimento de outra(s), e adquire vigência como um novo conceito. Pode ser um equívoco enriquecedor, para uns, e empobrecedor, para outros. De todo modo, contribui para a proliferação de signos da floresta humana. É algo próprio da psicanálise e de outras disciplinas “humanas”. Respondendo mais concretamente sua pergunta, não me preocupei com o que seja consagrado ou difamado.

FOLHA – A edição vai rever expressões já popularizadas, como “ego”…
SOUZA – Vinte anos atrás eu usava “ego”, mas à medida que fui traduzindo Freud –e Nietzsche, que usa “ich” e também “es”, com minúsculas– passei a achar estranho verter o corriqueiro pronome “eu” alemão pelo termo latino. Sei que “ego” já se popularizou em português, a única língua latina em que é usado, mas não consigo empregá-lo. “Es” é um problema em várias línguas. Os italianos usam “io” para “Ich”, mas mantêm o “Es” alemão; eu mantive o “id”, pois “Isso” não me pareceu muito bom em Freud. “Angst” significa tanto “medo” como “angústia” em alemão; é preciso que o leitor seja informado numa nota.

FOLHA – Teme que as novas expressões “não peguem”?
SOUZA – Não é preciso que “peguem”. Minhas traduções de Nietzsche são muito citadas por especialistas, mas a maioria deles continua usando “vontade de potência”, por exemplo, enquanto eu prefiro “de poder”. Não tem problema, basta que estejamos de acordo quanto ao que significa. Noto que a importância da terminologia é superestimada nos debates sobre a tradução de Freud. Há muita ênfase nos termos, em detrimento do texto. E o texto é o que importa realmente, pois nele há, ao mesmo tempo, intenção ou pretensão de cientificidade e recursos de sedução literária, com grandes percepções e, às vezes, fantasias psicológicas. Está ligado a isso o status nebuloso da psicanálise: é arte, ciência ou nenhuma das duas? Afinal, ninguém discute as traduções de Darwin, por exemplo.

FOLHA – Quantos volumes serão lançados no total? Quando serão publicados os últimos títulos?
SOUZA – Serão 20 volumes ao todo. O último será de índices e bibliografia; os dois primeiros, com textos pré-psicanalíticos, deverão ser traduzidos por André Medina Carone. É difícil precisar o ano em que concluiremos tudo; em algum momento da década de 2020, digamos.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u686646.shtml

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