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Publicado por Luiz Fernando Casanova Doin, em 08/11/2012, na(s) categoria(s): Notícias.

Sob a mira da tradução

Equívocos apontados por decano dos especialistas colocaram tradutores em situação delicada

Gabriel Perissé

A surrada concepção do tradutor como traidor não se mantém viva por acaso. Sempre haverá traições quando se empreende a tarefa inglória de reparar os danos causados pela maldição da Torre de Babel.

Traduzir melhor é imperativo profissional – quase um compromisso moral, segundo Antonio Candido – para quem entende a importância de sua atividade na vida cultural e editorial. Mas também é necessário criticar as traduções falhas, ou as falhas de uma tradução, se quisermos perseguir a (im)possível perfeição.

No Brasil, um dos maiores caçadores de equívocos em traduções foi Agenor Soares de Moura (1901-1957), professor mineiro que garimpava nos livros traduzidos na época erros cometidos por nomes desconhecidos (outros nem tanto, como o recifense Oscar Mendes) ou por escritores como Monteiro Lobato, Adonias Filho, Lúcio Cardoso e Érico Verissimo.

Agenor foi crítico de traduções, e tradutor consciente, praticante de refinada autocrítica. É dele a versão para o português de José e Seus Irmãos, O Jovem José, José no Egito e José, o Provedor, a desafiadora tetralogia de Thomas Mann. Traduziu autores tão diferentes entre si como Arthur Conan Doyle, David Severn e Thor Heyerdahl, sempre com igual dedicação, segundo testemunho de Paulo Rónai. Suas críticas aos colegas eram respaldadas por uma real familiaridade com os idiomas estrangeiros e profundo conhecimento do português. Apontava as falhas alheias (talvez menos arriscado do que expor-se a errar), mas sabia fazer o melhor em seus próprios trabalhos.

Pressão
Em À Margem das Traduções (Editora Arx, 2003), Ivo Barroso reuniu em livro os 89 artigos que Agenor escreveu para o suplemento literário do jornal carioca Diário de Notícias, entre setembro de 1944 e junho de 1946. Desses artigos não constava o nome verdadeiro do autor. Era com o pseudônimo C.T. (provavelmente para “Crítico de Traduções”, pensa Barroso) que vinham a público os incômodos artigos, incômodos para editores e tradutores ali mencionados.

Apesar de pertinentes, ou por serem tão pertinentes, os artigos deixaram de ser publicados. A interrupção se deveu, em parte, à pressão de editoras desmoralizadas pelas denúncias irrespondíveis de C.T. Por outro lado, o próprio articulista parece ter desistido da árdua missão: suas advertências soavam-lhe, afinal, como pregação no deserto.
Terão sido proveitosas ou inúteis as intervenções de Agenor, diligente caçador de erros tradutórios? Vejamos três exemplos apontados pelo professor mineiro nestas páginas.

Gabriel Perissé é professor do Programa de Mestrado e Doutorado em Educação da Universidade Nove de Julho (Uninove)
www.perisse.com.br

Com ou sem choro?

Em O Morro dos Ventos Uivantes, tradução equivocada manda personagem parar de chorar

O primeiro equívoco tem a ver com artigo publicado em 24 de setembro de 1944. O olhar implacável de Agenor se volta para a tradução que Oscar Mendes fez do livro O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë. Embora reconheça que, em geral, Oscar Mendes obtém bons resultados, não lhe perdoa os erros. Um certamente imperdoável, em sua opinião, foi verter a passagem “I don’t love you! How should I? Weep away” da seguinte maneira: “Não gosto de você. Como poderia eu gostar? Basta de lágrimas”. Essa passagem está no capítulo 27, e são palavras fortes que o protagonista Heathcliff dirige à jovem Catherine Linton para humilhá-la. Agenor pondera que a expressão “weep away” significa justamente o contrário: “chore à vontade”. O personagem despreza o sofrimento e as lágrimas da moça. Não quer que ela pare de chorar. Diz-lhe, na verdade, com sarcasmo, que ela pode chorar o quanto quiser, pois isso não lhe causará a menor compaixão.

Posteriores edições brasileiras da mesma obra, com assinatura de outros tradutores, indicam que a advertência de Agenor, com relação a esse erro, nem sempre chegou aos ouvidos dos interessados.

Tradutores                                Data da edição            Trecho traduzido
Rachel de Queiroz                  1947                              Pare com esse choro.
José Maria Machado              1948                              Basta de choro.
Vera Pedroso                           1985                              Chore o quanto quiser.
David Jardim Júnior               1998                              Chore à vontade.
Renata M. P. Cordeiro e
Eliane Gurjão S. Alambert     2003                              Pare de chorar.
Carolina C. Coelho                 2007                              Chore o quanto quiser.

O fantasma do erro

Tradutor troca a carta engolida em O Fantasma de Canterville
O segundo exemplo vem do artigo publicado em 21 de outubro de 1945, no qual Agenor se refere à tradução que a editora Vecchi lançara, naquele ano, de O Fantasma de Canterville, de Oscar Wilde. Da edição consta o nome de Alfredo Ferreira, intelectual gaúcho naquela altura já falecido. Não se conforma, o professor mineiro, com uma série de liberdades tomadas pelo tradutor. Em particular, traz à luz infidelidade grave a um trecho em que se descreve como Lord Canterville foi obrigado pelo fantasma a engolir uma carta de baralho.

Agenor apresenta o trecho do texto original, transcreve a duvidosa tradução de Alfredo Ferreira, e oferece uma alternativa. Acrescento a esta série
duas traduções mais recentes. A de Otto Schneider (1996) e a de Renata Lucia Bottini (2009).

Oscar Wilde
[.] Lord Canterville was found choking in his dressing-room, with the knave of diamonds half way down his throat, and confessed, just before he died, that he had cheated Charles James Fox out of £50.000 [.].
Alfredo Ferreira
[…] lord Canterville fora encontrado agonizante em seus aposentos, com uma dama de ouros metida na garganta, confessando, momentos antes de expirar, que, devido àquela carta, perdera cerca de 50.000 libras para Carlos Diogo Fox […].
Agenor Soares de Moura
[…] L. Canterville foi encontrado a sufocar-se no seu quarto, engasgado com um valete de ouros, e pouco antes de expirar confessou que, por meio dessa mesma carta, extorquira a Charles James Fox 50.000 libras […].
Otto Schneider
[…] Lorde Canterville fora encontrado meio sufocado em seu quarto de vestir, com uma carta de baralho enfiada na garganta, e confessara antes de morrer que havia trapaceado e roubado com aquela mesma carta cinquenta mil libras de Charles James Fox […].
Renata Lucia Bottini
[…] Lorde Canterville fora encontrado meio sufocado em seu quarto de vestir, com o valete de ouros entalado na garganta, e de como confessara, pouco antes de morrer, ter trapaceado no jogo com aquela mesma carta, roubando cinquenta mil libras de Charles James Fox […].

A rebelião das traduções

Agenor chama à responsabilidade tradutores em dois artigos de Ortega y Gasset
O terceiro exemplo daquela cruzada solitária de Agenor contra as traduções infiéis refere-se ao que ele considerava “uma das traduções mais deturpadas” que já conhecera: a versão, em 1933, do livro La Rebelión de las Masas, de José Ortega y Gasset, por Edições e Publicações Brasil Limitada. Agenor chama os tradutores J. Catoira e Cláudio Barbosa à responsabilidade em dois artigos, nos dias 4 e 11 de novembro de 1945.

Eis aqui alguns trechos da tradução desastrada, com as respectivas citações do original orteguiano. Comparo-os com a tradução de Marylene Pinto Michael, publicada pela Martins Fontes em 1987. Os comentários finais são inspirados pelas observações que o professor Agenor fez naquele momento, muito úteis ainda hoje.

José Ortega y Gasset
1- Es falso decir que la historia no es previsible.
2- La idea de que el historiador es un profeta del revés resume toda la filosofía de la historia.
3- El hombre-masa no afirma el pie sobre la firmeza inconmovible de su sino.
4- ¡Saetas sin brio que fallan al blanco!
J. Catoira e Cláudio Barbosa
1- É falso dizer que a história não é previdente.
2- A ideia de que o historiador é um profeta do contrário resume toda a filosofia da história.
3- O homem-massa não firma o pé sobre a firmeza insensível de seu senão.
4- Canções sem brio que ficam em branco!
Marylene Pinto Michael
1- É falso dizer que a história não é previsível.
2- A ideia de que o historiador é um profeta no sentido contrário resume toda a filosofia da história.
3- O homem-massa não tem os pés plantados na firmeza irredutível de sua sina.
4- Setas sem valor que erram o alvo!
Comentários
1- Confundir “previdente” com “previsível” é tão absurdo que o leitor quase duvida dos próprios olhos!
2- O profeta fala do que acontecerá. O historiador, do que já aconteceu. Por isso o historiador é um profeta “pelo avesso”, ou “às avessas”.
3- Sino, no contexto do original espanhol, é substantivo, significando “destino”, “sina”. A tradução de “sino” pelo substantivo português “senão” leva-nos a perguntar, perplexos: o homem-massa não estaria com os pés plantados na firmeza de sua própria imperfeição?
4- Os tradutores pensaram na saeta, tipo de copla religiosa cantada no sul da Espanha. Depois desse tropeço, caíram na armadilha (blanco é falso cognato dos mais ardilosos) e erraram o alvo!

Fonte: http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=12267

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