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Publicado por Luiz Fernando Casanova Doin, em 08/11/2012, na(s) categoria(s): Notícias.

Síndrome de Taffarel

A profissão de tradutor é tão ingrata quanto a de goleiro — mas alguns a exercem com brilho

Carlos Graieb

O tradutor está para a literatura assim como o goleiro para o futebol. Quando faz um bom trabalho, passa em branco. Se toma um “frango”, é citado em todas as resenhas. De tanto esses profissionais serem criticados, virou lugar-comum dizer que os tradutores brasileiros não prestam. Não é verdade.

Existem os que desempenham essa função com a mesma eficiência com que o são-paulino Rogério Ceni, titular da seleção brasileira, atua debaixo dos três paus. Entre eles estão, por exemplo, os cariocas Paulo Henriques Britto e Aulyde Soares Rodrigues. Desde 1974, Henriques Britto já transpôs mais de cinqüenta títulos do inglês para o português. Foi dele, por exemplo, a tradução de Rumo à Estação Finlândia, do americano Edmund Wilson, que marcou a estréia da editora Companhia das Letras no mercado, em meados da década de 80. Mas o melhor símbolo de seu talento talvez esteja no recém-lançado O Arco-Íris da Gravidade, do também americano Thomas Pynchon. Cheio de referências obscuras, o livro é considerado um dos mais difíceis do século. Britto dedicou-lhe onze meses e até se correspondeu com o autor, um famoso recluso. O resultado foi um texto tão rico em português quanto é no original.

De perfil diferente, mas igualmente cuidadosa, é Aulyde Soares Rodrigues. Senhora de mais de 60 anos, ela trabalha em ritmo acelerado: já chegou a traduzir quarenta laudas num dia. Se Britto prefere os autores “difíceis”, Aulyde ganhou reputação com os “mais vendidos”. Antes de chegar ao leitor brasileiro, os suspenses de John Grisham ou as ficções científicas de Michael Crichton lançados pela Editora Rocco normalmente passam por suas mãos. Aulyde sabe muito bem o que o fã desse tipo de literatura espera: um texto fluente e cativante, sem esbarrar em frases rebuscadas. Graças ao bom trabalho, Britto e Aulyde foram “adotados” pelas editoras citadas, que os mantêm sempre ocupados. Eles conseguem pagamentos melhores: 13 ou 14 reais por lauda traduzida, contra os 9 ou 10 reais que são a média do mercado.

Tá boa, santa? — É acima do normal, mas não é nenhuma maravilha. Paulo Henriques Britto, por exemplo, diz que consegue traduzir uma média de 100 páginas por mês, embolsando algo em torno de 1.300 reais (ele complementa a renda aceitando alguns outros trabalhos, como traduções de teses e artigos). Mais rápida, Aulyde desbasta um romance de 300 páginas no mesmo período, podendo faturar em meses gordos cerca de 4.000 reais. Essas baixas remunerações transformaram alguns profissionais talentosos em verdadeiros ativistas por melhores salários. É o caso de Nilson Moulin, tradutor de autores como Italo Calvino e Giorgio Manganelli, premiado pelo governo italiano. “Há muito editor por aí que, além de semi-analfabeto, é pão-duro”, acusa. “Eles nos tratam como digitadores de luxo.” Moulin teve de reduzir seu ritmo de trabalho por causa de uma tendinite e diz que vai fugir da tradução enquanto o preço das laudas não for corrigido e não houver o reconhecimento legal dos direitos autorais sobre a tradução. As mesmas reivindicações são feitas por Lia Wyler, ex-presidente do Sindicato Nacional dos Tradutores, autora do verbete sobre o Brasil na única enciclopédia de tradução existente no mundo e também de uma grande tese sobre a história da tradução no Brasil. “Há gente que se vê obrigada a traduzir três livros por mês”, diz ela. “É um absurdo.”

Falar mal dos tradutores não é uma coisa nova no Brasil. Nos anos 40, o crítico Agenor Soares de Moura criou uma coluna no extinto jornalDiário de Notícias unicamente para fazer crítica de tradução. Ele achava tantos erros que os editores se revoltaram e pediram sua demissão. Agenor caiu. Hoje em dia, seria mais complicado fazer uma coluna assim, já que há muito debate teórico a respeito do assunto e duas escolas diferentes de tradução, a progressista e a conservadora. Os pertencentes à segunda afirmam que o tradutor deve ser invisível, ou seja, produzir um texto tão limpo que dê a impressão de ser um original. Paulo Henriques Britto, assim como a maioria dos tradutores brasileiros, filia-se a essa tendência. Os progressistas acham que tal postura é a responsável pelo desprestígio cultural do profissional. Em troca, propõem que a versão acrescente idéias ao original para chamar a atenção. Uma radical dessa tendência é a feminista americana Susane Jill Levine. Sempre que esbarra com um personagem machista num livro, ela “suaviza” sua linguagem até transformá-lo, propositadamente, num gay. Posições como essas serão discutidas a partir da semana que vem num simpósio sobre tradução promovido pela editora Record. Espera-se que nenhum profissional brasileiro resolva imitar Susane Jill Levine e comece a colocar expressões como “tá boa, santa?” na boca de lutadores de vale-tudo.

http://veja.abril.com.br/251198/p_184.html

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