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Publicado por Luiz Fernando Casanova Doin, em 08/11/2012, na(s) categoria(s): Notícias.

Arranje uma sopinha

A avaliar pelo escárnio e maldizer que por aí vai a propósito do “inglês técnico” do primeiro-ministro, dir-se-ia que vivemos num país culturalmente sofisticado, onde o conhecimento linguístico e o cuidado na conversão entre diferentes idiomas são a norma.

Na verdade e com algumas excepções, geralmente na tradução escrita -técnica, poética e filosófica – a qualidade da tradução em Portugal é execrável.

É impossível registar com minúcia todos os casos, nem teria o tempo e a disposição para tal, mas são tantas as barbaridades que basta um contacto infrequente com os programas legendados nos diversos canais da televisão por cabo para ter vontade de dar cabo da televisão. Os exemplos mais comuns são do domínio do ridículo -recordo-me de ‘town Marshall’ tomado por “marechal da cidade”, ‘rain check’ por “abrigo de chuva”, ou ‘statute of limitations’ por “estatuto de subscrições”. Por vezes a vulgaridade sobrepõe-se à ignorância, como no caso em que ‘playing matchmaker’ apareceu convertido em “arranjar um caldinho”. Nos casos mais extremos de indigência intelectual, podemos encontrar alguém a sugerir que ‘a man in a slick suit’ se trata de “um homem de fato de borracha”. Depois há as gaffes com requintes de estupidez. Uma das mais absurdas ocorre num episódio de Poirot. Durante uma refeição, o capitão Hastings pergunta ‘how is the sole of Deauville?’ à sua interlocutora, que lhe responde ‘delicious’. O tradutor inventa o seguinte diálogo: “Como está a alma de Deauville?”; “Deliciosa”. Nem o cenário do restaurante nem a flagrante incoerência entre a questão e a resposta o levaram a suspeitar que poderia estar a transformar uma pergunta sobre o estado do peixe num enigma transcendental.

As traduções cinematográficas, que se suporia mais cuidadosas, vão pelo mesmo caminho das televisivas. Por exemplo, como se não fosse suficiente ver a obra de Evelyn Waugh transformada numa ordinarice pegada, o tradutor de Brideshead Revisited (2008) decide participar no desastre dando um contributo de originalidade que ninguém lhe encomendou. Quando Charles Ryder recebe uma mensagem de Sebastian Flyte, garantindo estar “gravemente ferido”, decide regressar para junto do amigo e anuncia a decisão ao pai, que lhe responde com ironia: ‘well, I shall miss you, my boy, but don’t hurry back on my account’. O tradutor converte a ironia em materialismo: “não venhas a correr para o meu dinheiro”. O motivo do equívoco é penosamente evidente, ou ‘feathery obvious’, como diria o tradutor, a quem apetece responder por interposto Sebastian: ‘my dear, I should like to stick you full of barbed arrows like a p-p-pin-cushion’.

Obviamente, a qualidade das traduções que servem de base às dobragens também não escapam. Num programa sobre hotéis, o pintor Georges Braque foi rebaptizado como “Barck” e Seurat sofreu uma transmutação notável, aparecendo sob a forma de casta, ainda que não diva nem deva: “Syrah”. Enfim, que Syrah, Seurat, mas chegados a este estado de coisas e antes que se veja por aí ‘get a subpoena’ traduzido por “arranje uma sopinha”, ou ‘the Primate of Canterbury’ por “o primata da Cantuária”, sugiro que se procure modificar a forma de legendagem televisiva, de modo a tornar opcional a muleta manhosa do “português de tradução”. Para muitos, o contacto com as línguas francas contemporâneas seria estranho no início, mas com a habituação revelar-se-ia enriquecedor, ou como sói traduzir-se, ‘first they would estranhate, then it would entranhate’.

Fonte: http://economico.sapo.pt/noticias/arranje-uma-sopinha_102085.html

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