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Publicado por Luiz Fernando Casanova Doin, em 08/11/2012, na(s) categoria(s): Notícias.

A lógica do tradutor automático

Mecanismos de tradução virtuais podem gerar aberrações sem a intervenção humana no texto

É melhor não confiar de olhos fechados (e muito menos com os olhos abertos!) nas ferramentas de tradução, várias delas on-line. São insuficientes e imprecisas, embora, no século passado, entre as décadas de 50 e 60, se tenha difundido a ideia de que o computador viria a traduzir de forma satisfatória os mais diversos textos, ilusão descartada trinta anos depois, e substituída, hoje, por um objetivo modesto e factível: criar aplicativos que auxiliem num momento inicial, sempre à espera da intervenção e da criatividade humanas.

Uma boa tradução requer a capacidade exclusivamente humana de identificar aspectos e nuances fonéticos, sintáticos e semânticos que a mais sofisticada “inteligência” artificial jamais identificará, pelo simples fato de que tal inteligência não é inteligente, não é lógica – lógica no sentido do termo grego lógos, envolvendo linguagem, razão, explicação e capacidade de argumentação.

É instrutivo, ou ao menos divertido, verificar a performance ilógica desses limitados recursos computacionais, comparando-os ao inspirado, belo e sofrido trabalho humano, cuja lógica ultrapassa em muito o maquinal.
Vejamos dois exemplos, um em inglês e outro em francês.

Mario Quintana traduziu The Power and the Glory (O Poder e a Glória, pela Editora Globo, em 1953), um dos livros mais famosos de Graham Greene (1904-1991), que no início do capítulo 3 apresenta-nos o capitão Fellows. O texto do original e as duas versões – a versão automática foi realizada por uma ferramenta on-line disponível no site da empresa Jurotrans – dão margem a alguns comentários:

Uma boa tradução requer a capacidade humana de identificar aspectos e nuances fonéticos, sintáticos e semânticos – algo de que a inteligência artificial jamais será capaz

O tradutor automático pode nos servir de ajuda, mas é incapaz de pensar-sentir, entender-intuir, interpretar-criar. A lógica humana integra elementos aparentemente contraditórios e ilógicos… mas ilógica, afinal, é a lógica que não se transcende, e, parafraseando Pascal, não ri da própria lógica.

Exige-se do tradutor razão e coração para, como neste segundo exemplo, trabalhar com Mon Coeur Mis à Nu (Meu Coração Desnudado), de Charles Baudelaire (1821-1867). Escolho um trecho desta obra, traduzida pelo professor Tomaz Tadeu (Autêntica Editora, 2009), utilizando para cotejo o resultado obtido com o software de tradução Babylon 8:

Gabriel Perissé é professor do Programa de Mestrado e Doutorado em Educação da Uninove www.perisse.com.br

O original…

Graham Greene

Captain Fellows sang loudly to himself, while the little motor chugged in the bows of the canoe. His big sunburned face was like the map of a mountain region – patches of varying brown with two small blue lakes that were his eyes. He composed his songs as he went, and his voice was quite tuneless. “Going home, going home, the food will be good for me-e-e. I don’t like the food in the bloody citee.”tam dinheiro a pessoas que dificilmente poderão pagar a dívida.

As versões

Mario Quintana

O Capitão Fellows cantava
alto para si mesmo,
enquanto o pequeno
2 motor ronronava na
proa do bote. O grande
4 rosto tisnado lembrava
o mapa de uma região
montanhosa, com as suas
manchas de vários tons
de castanho e os dois
pequenos lagos azuis que
eram os olhos. Cantava
com uma voz terrivelmente
desafinada umas canções
que ia improvisando: “Vou
pra casa, vou pra casa,
tudo o que eu comer vai
ser bem bom, bem bom,
bem bom. Adeus, maldito
grude desta maldita
5 cidaaaaade!”.

Tradutor automático

Capitão Fellows
1 cantaram bem alto para
si mesmo, enquanto
que o pequeno motor
chugged nos arcos
3 da canoa. Sua grande
4 sunburned rosto era
como o mapa de uma
região de montanha
– variando marrom
com manchas de dois
pequenos lagos azuis
que eram seus olhos. Ele
compõe suas canções
como ele foi, e sua voz
era muito desafinado.
“Indo para casa, indo
para casa, o alimento vai
ser bom para mim-ee.
Não gosto da comida na sangrenta
5 citee.”

Comentários

1 O “s” confundiu o tradutor automático, e o fez “pensar” que Fellows era mais de uma pessoa a cantar.

2 A máquina não ouviu o som de outra máquina, e por isso não traduziu o verbo to chug. O motor do barco, para Quintana, ronronava como um gato.

3 Se o tradutor automático estivesse a par da terminologia náutica, compreenderia que bows, neste contexto, refere-se à parte dianteira de uma embarcação.

Como poderia a máquina saber que a pele clara, demasiadamente exposta ao sol, adquire tonalidade escura? Já o tradutor humano vê o rosto tisnado, tostado, do personagem.

5 O personagem, tomado pela alegria, está inventando uma canção. Quintana estende a letra “a” de “cidade” para captar o citee do original, que rima com o me-e-e. A máquina não desafina nem acerta. Simplesmente reproduz “m-ee” e “citee”, ilogicamente…
O original…

Charles Baudelaire

À chaque minute nous sommes écrasés par l’idée et la sensation du temps. Et il n’y a que deux moyens pour échapper à ce cauchemar, pour l’oublier: le plaisir et le travail. Le plaisir nous use. Le travail nous fortifie. Choisissons. Plus nous nous servons d’un de ces moyens, plus l’autre nous inspire de répugnance. On ne peut oublier le temps qu’en s’en servant. Tout ne se fait que peu à peu.

As Versões

Tomaz Tadeu

Somos, a cada momento,
atropelados pela ideia e
pela sensação do tempo.
1 E só há dois meios de
escapar desse pesadelo,
de esquecê-lo: o prazer e
o trabalho.
2 O prazer nos consome.
O trabalho nos fortifica.
4 Escolhamos. Quanto
mais nos servimos de
um desses meios, mais
o outro nos inspira
repugnância. Só
podemos esquecer o
tempo se o utilizamos.
Nada se faz senão pouco
5 a pouco.
Tradutor automático

Todos os minutos
1nós tempo de rolos
compressores pela ideia
e a sensação. E há só
duas possibilidades da
evasão este pesadelo para
esquecido: a alegria e o
trabalho. Felizmente
3nós usamos. O trabalho
nós fortalecemos.
Escolha. O mais que nós
servimos estes meios, que
outros nos despertam, de
relutância. A pessoa não
é permitido cronometrar
esquecido, isto serve. Só
acontece lentamente todo o
mundo.

Comentários

1 O tradutor automático trouxe a palavra “tempo” para o início da frase, sem nenhuma razão aparente, talvez tentando escapar aos “rolos compressores” que surgiram do nada!

A máquina desconhece o prazer e perdeu o rumo da tradução, recorrendo à ideia de felicidade que também lhe é estranha, e estranha ao texto.

3 Distinções simples podem ser complexas demais para o tradutor automático. O pronome nous, nestes dois casos, atua como objeto e não como sujeito.

4 Sintomaticamente, o software parece ter compreendido que ele não é capaz de escolher. Exclui-se, portanto, da primeira pessoa do plural… e ordena que o leitor faça a escolha!

Escrever, traduzir, criar são processos trabalhosos, requerem persistência, paixão, estudo, idas e vindas. Os tradutores automáticos produzem com rapidez, mas, como nesta frase, falham no essencial – uma boa tradução, como tudo o que tem valor na vida, se faz pouco a pouco.

Fonte: http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11804

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